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Orgânicos no Brasil, mas não para os brasileiros

O setor de orgânicos no Brasil teve crescimento, como revelam dados do setor, mas de uma base ínfima. Com deficiência de fornecimento e preços elevados, este setor continua um nicho. Se nada for feito, corre o risco de permanecer às margens de um potencial mercado consumidor. Leia na coluna deste mês.

Segundo pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, grande parte dos alimentos orgânicos produzidos no Brasil são destinados à exportação. A maioria são matérias primas ou produtos extrativistas semi-processados. Em 2016 foram US$ 145 milhões faturados em exportações, conforme dados do Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável. Um crescimento de 15%, percentual elevado que tende a mascarar a efetividade da nossa participação no setor. Comparando aos US$ 80 bilhões movimentados mundialmente, fica evidente que o Brasil ainda se encontra muito longe de explorar seu potencial.

Dos associados de um instituto de fomento do setor, aproximadamente 10% são assessorias e consultorias e 10% são produtores de artigos de limpeza e cosméticos. Quase 50% das empresas associadas são de produtos minimamente processados para exportação, como café, açúcar, mel e produtos extrativistas. Somente em torno de 30% dos associados são indústrias de alimentos com expressividade de oferta no varejo interno. Estamos falando aqui de pouco mais de uma dúzia de empresas, enquanto o Brasil conta com mais de 40 mil indústrias de alimentos e bebidas.

O Brasil avança, mas sem rumo na oferta nacional

Em 2016 houve crescimento de 30% no mercado de orgânicos do Brasil, informa o projeto Organics Brasil, o que significa um volume de apenas 0,3% do mercado brasileiro de alimentos e bebidas. O percentual de participação inexpressivo traduz perfeitamente o nível de dificuldade de fabricar produtos orgânicos. A deficiência na garantia do suprimento de matérias primas, somada à burocracia da recertificação para acesso a todos os insumos, aumentam o custo para as indústrias e o preço final ao consumidor. Transformam o setor em nicho.

Recentemente, fabricantes nacionais do ramo decidiram encerrar atividades e outros, antes exclusivos do mercado orgânico, começam a ceder para o conceito “natural”. Algumas pequenas indústrias se dedicam a vender num perímetro estritamente local e mantém a oferta dos mesmos produtos há anos, sem perspectivas de inovação.

O Ministério da Agricultura, criador do selo “Orgânicos do Brasil”, tem ótimas políticas voltadas à produção rural e conscientização do consumidor, porém faltam políticas para o desenvolvimento tecnológico e industrial do setor, que facilitem inovações através do acesso a toda a cadeia de matéria prima e insumos, interno e externo, com viabilidade de aplicação em escala industrial. O avanço depende de uma ação conjunta e renovada entre governos e indústrias, para que haja atratividade para empreender neste segmento.

Temos potencial para desenvolver e vender, com grande sucesso no mercado nacional, uma quantidade enorme de produtos orgânicos. No entanto, o preço imposto pela atual dinâmica do setor é injusto com empreendedores e consumidores. Comparando produtos orgânicos e convencionais em supermercados conhecidos, chega-se a diferenças de 30% a 800%. Países desenvolvidos têm melhor equivalência de preços entre orgânicos e convencionais, fazendo do ganho de escala seu maior aliado para o fomento do setor. Em tese, qualquer produto pode ser orgânico, desde os assumidamente saudáveis até os indulgentes, passando pelos práticos e convenientes.

Perseverar?

A produção orgânica bate de frente com o uso de agrotóxicos, um mercado poderoso de 130 mil toneladas por ano, cujos dados assustam. O Brasil está em primeiro lugar no ranking mundial de uso de agrotóxicos. De acordo com a Anvisa, nos últimos dez anos, a utilização de agrotóxicos aumentou 190%, sendo que muitos dos pesticidas e herbicidas utilizados no Brasil são proibidos em outros países. Estudos da Fundação Oswaldo Cruz mostraram que destes, 17 diferentes tipos sequer têm estudos para dizer como impactariam na saúde do consumidor.

Os paradoxos do setor não param por aí. A oferta é massacrada pelos desafios de fabricar produtos orgânicos acessíveis a uma grande massa de consumo, enquanto a demanda em escala está adormecida perante a realidade dos altos preços e pouca disponibilidade de produtos.

Falamos deste setor com a propriedade de pioneiros no fornecimento de ingredientes para o fomento do desenvolvimento, industrialização e oferta de produtos orgânicos no varejo Brasileiro. Nossas expectativas não condizem com os atuais números do setor, mas ainda acreditamos numa mudança. Perseveramos. 

Até mês que vem – Fiquem DE OLHO!

Carina Rocha e Gabriel Weinsberger (Para críticas e sugestões, pedimos que entre em contato conosco: gabriel@gramkow.com.br)